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sábado, 6 de junho de 2009
You should smoke
quinta-feira, 21 de maio de 2009
Tava demorando
quarta-feira, 13 de maio de 2009
O tenista decadente
O mundo do esporte não acreditava no que acontecia. Roger Federer, visto por muitos como o melhor tenista da história, considerado imbatível, insuperável, gênio, uma lenda, chorou. Chorou copiosamente. Tentou falar diversas vezes, mas engasgava nas próprias lágrimas. Quem estava em volta não sabia o que fazer, se aplaudia, se consolava, e acabaram ficando todos quietos, admirando o "mito" do tênis desabando diante das câmeras, do adversário e de todos que assistiam. Nesse momento, ele confirmou o que se especulava há muito tempo: estava em franca decadência.
Ele chorava, pois havia acabado de perder a final do Aberto da Austrália, um dos mais importantes torneios de tênis, no começo deste ano. Federer já ganhou esse campeonato três vezes, então não eram exatamente pela derrota as suas lágrimas. Ele perdeu para Rafael Nadal, um espanhol de 22 anos muito talentoso, alguém com quem ele já jogara diversas vezes. Portanto, não era um choro de surpresa. Muito pelo contrário, porque Nadal venceu a maioria dos jogos em que enfrentou o tenista suíço. A última vez que haviam se encontrado foi em Londres, em julho de 2008, no torneio de Wimbledon, em uma partida considerada uma das melhores da história do esporte. Essa vitória de Nadal foi sim surpreendente, pois o piso do torneio é a grama, local em que Federer quase nunca perdera em sua carreira, até aquele dia. O suíço saiu de quadra desolado, sem chão, mas esperançoso, porque ainda era o "número 1 do mundo". Menos de um mês depois, ele teve que passar essa "coroa" para o espanhol.
Quando Nadal surgiu, em 2004, arrasador, principalmente no piso do saibro, eu duvidei de que ele seria uma grande oponente à "lenda". Era forte e extremamente concentrado, mas Federer era mais talentoso, igualmente "focado" e forte, e joga tênis com a facilidade com que eu jogo truco. Enquanto o espanhol colecionava todos os títulos na terra batida (ele nunca perdeu um jogo sequer em Roland Garros), Federer reinava na quadra dura e na grama, e não demonstrava muita preocupação com os outros tenistas. Seu maior adversário eram os recordes de Pete Sampras. Os franceses que compareceram à quadra central de Roland Garros em 2008 esperavam uma longa partida, como era comum entre os dois. Mas viram uma humilhante lavada, em que Nadal parecia dar aulas de tênis a um juvenil. O último set teve o placar de 6 x 0. Mas o gênio ainda não se preocupava, pois estavam jogando no saibro, logo depois eles jogariam Wimbledon e o troco seria dado. A final do Grand Slam inglês mostrou que ele não poderia estar mais enganado. Depois daquele dia em Londres, ele continuou chegando a finais e conquistou o Aberto dos EUA, mas o que se via era "apenas" um excelente tenista, o gênio havia morrido na grama londrina.
Após Nadal superá-lo no ranking e abrir enorme vantagem, a última esperança do suíço era a quadra dura australiana. Outra derrota, e não havia espaço para o riso sem graça, para a sua costumeira elegância: o seu semblante era a mais pura tristeza, e uma enorme sensação de impotência. Ele talvez não sabia por que chorava. Ainda mais pela declaração que deu após a final: "Em um quinto set, tudo pode acontecer. Esse é o problema. Nem sempre o melhor jogador vence. É uma questão de momento, às vezes”. Obviamente, ele ainda se achava melhor do que Nadal. Mas não era, não é há muito tempo. Pensando bem, essa frase revela o porquê de sua queda: a incapacidade de admitir que alguém é capaz de superá-lo. O que o espanhol fez após essas três vitórias que citei? Disse que era uma honra poder dividir a quadra com o seu ídolo. Percebeu a diferença?
Claro que Federer ainda é um grande tenista, que pode ganhar muitos outros títulos, inclusive superar os números de Sampras. Todos os tenistas, exceto Nadal, dariam tudo o que têm para estarem em seu lugar, e contarem com seu prestígio. Mas os jornalistas em geral têm pavor de falar que o espanhol tornou-se melhor, e o suíço está em decadência. Para mim, isso é mais que evidente. O decadente tenta negar sua queda como pode, procura desculpas para suas derrotas, seu orgulho o cega a ponto de achar que a vitória do outro se deve apenas aos seus próprios erros. Federer nunca foi deselegante, mas tampouco tentou adaptar seu jogo às novas circunstâncias, esperando a queda de seus oponentes. Agora é tarde demais. Enquanto isso, o outro campeão trabalha, quieto, humilde, a cada dia calando os que duvidaram de sua capacidade de se superar (como eu). Por isso, dificilmente veremos o seu choro: ele sabe como poucos a sensação de ter que se provar a todo momento.
domingo, 10 de maio de 2009
Simplesmente Conhecidos
As pessoas do nosso cotidiano estão dispostas em grupos. O grupo da família, dos amigos, grupos de uma pessoa só ou de várias. Nenhum deles, no entanto, será tão grande, plural, instigante e comprometedor quanto o indefinido grupo dos "conhecidos". Nele se encontra os "bons conhecidos" (amigos em potencial, pessoas interessantes em geral, ex-namorados pacíficos), os "maus conhecidos" (desafetos do passado, pessoas desagradáveis, ex-namorados belicosos), e os... "simplesmente conhecidos". Não poderia haver subcategoria pior por sua indeterminação.
Tentemos, no entanto, determiná-los. Os "simplesmente conhecidos" são pessoas das quais você não se lembra da existência até que seus caminhos se cruzem e ambos não saibam direito o que fazer. Um aceno de leve ou beijinho de bochecha? Esse é o menor dos dilemas, se ambos seguem imediatamente os seus respectivos caminhos. Mas não será o único, já que o instinto de socialização de algum dos dois vai prevalecer e essa pessoa vai perguntar "E aí?" em uma situação em que a única resposta é "E aí nada, cara". Resposta nunca dita, lógico. Sempre é mais fácil enredar-se num assunto suicida, como "o céu tá feio!" e arranjar logo uma coisa urgente pra fazer.
Claro que estou falando de situações implicitamente convencionadas. Mas eu, particularmente, não gosto de convenções. O que me leva à minha constrangedora história de dois "simplesmente conhecidos" (categoria que, freqüentemente, engloba ex-namorados de suas amigas) que prefeririam fazer qualquer outra coisa que não a simplesmente conhecida conversa bamba de conhecidos.
Estava voltando para casa, de pé no ônibus, cansada de mais um dia de faculdade e tentando aplacar isso ouvindo música no último volume. Minha infalível visão periférica feminina intercepta a existência de um "simplesmente conhecido", mas não qualquer um: o que pegará dois ônibus com você, pois mora próximo à sua casa. Uma hora e meia de puro constrangimento e boletim meteorológico. Nunca, jamais! É hora de fazer a coisa mais simples a ser feita: se ele não viu que você o viu, mantenha seu olhar em um campo que exclua o indivíduo e torça pra ele não vir falar com você. Dito e feito. Ele não veio falar comigo. Que isso dure pelo menos durante o primeiro ônibus.
Minha infalível visão periférica, então, repara que o campo de visão do sujeito também está meio... restrito. Voilà! "Ele está usando meus métodos!", pensei, sentindo-me aliviada pela incrível sintonia que havia encontrado com meu "simplesmente conhecido". Ele também não queria ser perturbado. Estava óbvio. Ficou mais óbvio ainda quando, ao descermos do ônibus (lado a lado, cada qual restringindo estupidamente seu próprio campo de visão), ele disparou com passo apertado ao outro ponto de ônibus. Para retribuir a bondade, comecei a passear tranquilamente ao destino comum, sem medo de perder o ônibus ("Tomara que eu perca o ônibus!").
No meio do caminho, contudo, percebo que meu amigo da arte de ignorar para, dá uma rápida olhadinha pra trás (na minha direção) e desiste de andar velozmente. Por certo, deve ter percebido que eu iria, de fato, para o mesmo lugar que ele. Ou que o ônibus não estava na iminência de passar e, portanto, não deveria apressar-se para não perdê-lo. Preferi acreditar na primeira possibilidade, que tanto aproximava-me em intenções do meu conhecido. Essa possibilidade dava-me coragem de ser sincera e falar "Oi, você sabe que nossas conversas são dispensáveis, estou cansada e quero só ouvir minha música".
Quando cheguei ao ponto de ônibus, nossos dois sorrisinhos constrangidos e cansados encontraram-se. Estava sentindo-me uma salvadora da pátria ao proferir aquelas palavras odiosas, mas que encaixavam-se nesse jogo pré-estabelecido. Na minha cabeça. Sim, pois a cara que ele fez não foi de alívio. Foi de alguma coisa negativa que não saberia dizer. Talvez estivesse ofendido. Com certeza estava ofendido, como pude dizer coisas tão estúpidas?! Senti um pouco de raiva de mim mesma, mas depois raiva dele. Eu sei que ele não estaria mais feliz com a nossa conversa sobre a comida do bandejão. Vaidoso.
Estava tudo péssimo. Mas estava tudo ótimo. Agora ele configurava a lista dos "maus conhecidos". Sabe, aqueles? Aqueles desafetos do passado, pessoas desagradáveis, ex-namorados belicosos, ex-namorados de amigas que aparentemente não querem conversa com você mas ficam ofendidos quando você manifesta que prefere ficar calada. Aqueles. Aqueles que, assim como os "simplesmente conhecidos", me fazem aumentar o som e esquecê-los em três... Dois... Um.
quinta-feira, 7 de maio de 2009
O que é que o futebol tem?
“Qual a graça de ver um bando de homens correndo atrás de uma bola?”. A questão levantada geralmente por aqueles que não apreciam o futebol pode até ter um fundinho de verdade. O que tanta gente encontra de interessante em 22 homens correndo atrás de uma bola (e um correndo atrás dos 22), a fim de colocá-la em um retângulo todo amarrado com barbantes? Seria simples a imbecilidade do esporte. Mas não é.
Ele é muito mais que isso. Mais que um jogo, que um esporte. É difícil, diria até impossível, achar algum ramo da vida moderna que não possa ser relacionado com o futebol. Guerra? Antropologia? Economia? Medicina? Culinária? Humor? Por maior que seja a diversidade de temáticas que permeiam a vida humana, pelo menos uma influência, mesmo que em tempos remotos, o futebol exerceu. O mundo é vasto, mas não se esqueça, ele também é uma bola.
E por mais que povos, intelectuais e fidalgos o rejeitem, não tem jeito. O esporte bretão é o mais amado e o que mais provoca amores. Aliás, esporte bretão não, universal. Por mais que os filhos da rainha afirmem a paternidade do futebol por ter organizado regras, todos os cantos do planeta têm seus genes registrados no DNA da bola. Ancestrais chineses, medievais italianos, artistas brasileiros e até mesmo aqueles norte-americanos que carregam bolas ovais com as mãos têm seu espaço na árvore genealógica futebolística.
Qual seria então o elixir do futebol? Qual sua fórmula secreta? Não há. A simplicidade é o que faz o futebol. E numa tentativa de explicar a paixão que provoca, o único motivo que pode se tornar plausível é a sua capacidade de apaixonar. O futebol hipnotiza multidões. Leva pessoas das mais diferentes características a se transfigurarem por conta de um lance. Até um mafioso choraria após uma derrota de seu time. Mesmo um monge tibetano perderia a paciência quando o seu centroavante perdesse aquele gol feito. O maior pessimista do mundo ainda conseguiria enxergar a esperança em uma vitória suada.
E essas pessoas, com reações tão particulares em seus gestos de alegria e angústia, são capazes de se transformar em um único gigante. Um outro jogador mais imprescindível que Pelé, mais espetacular que Maradona e que tem como traço mais marcante a garra e a energia. Camisa 12 eterno, a torcida é sem igual, o atacante mais efetivo da equipe, o marcador mais implacável.
Além de tudo, a torcida é musa inspiradora de todos os jogadores, de craques mundiais a peladeiros da várzea. Quem nunca sonhou em ter seu nome gritado por milhares de fanáticos, balançando as redes em uma final de campeonato? A magia da aclamação é o mecenas da arte do futebol. O drible que deslumbra, o passe milimétrico, o gol impossível. A beleza dos lances em campo se inicia na imaginação dos torcedores e se concretiza nos pés daqueles que se tornam oferenda para agradar os deuses situados na arquibancada. Como recompensa, a glória.
Afinal, o que há mesmo de interessante nos 22 homens que se cansam atrás de uma bola? Nada. A graça está no que algo tão simples e insignificante consegue provocar. Constrói culturas, influencia pensamentos. Fato instigante que fascina, a partir os pés dos jogadores, o coração dos torcedores.

